Meu pai, a TV e o Streaming

Num dia, a luta para sintonizar a TV, as longas visitas aos familiares e no outro vejo tudo isso cada vez mais distante. E tudo em 20 anos.

by Mateus Ribeiro

Meu pai, a TV e o Streaming
Photo by Bastian Riccardi / Unsplash

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Hoje, me recordei do dia em que eu cheguei da escola e presenciei meu pai e meu tio em uma luta árdua para sintonizar nossa TV.

Naquele dia meu pai estava muito empolgado, pois, conseguiu comprar um amplificador de sinal e um conversor UHF para ver a seleção brasileira na Copa do Mundo. O Brasil conquistou o Penta naquele ano. Era o início do século, era o ano de 2002.

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Transformações de duas décadas

Hoje, ao ler uma matéria da CNN, percebo que já se passaram mais de 20 anos daquele momento e não vejo mais a tentativa de sintonizar um canal de TV. Isso é acontece porque já existem muitos canais disponíveis através de Streaming.

Muitas coisas mudaram no Brasil e no mundo desde 2002, exceto o fato de que o Brasil não conseguiu nenhuma taça em Copa do Mundo desde então.

A televisão que na minha casa era uma caixa de madeira da Mitsubishi com seus 24 anos, foi substituída por uma tela muito fina e com acesso à Internet e um botão da GloboPlay e Netflix.

O YouTube a revolução do Streaming

A presença desses botões faz todo o sentido, pois os serviços de vídeo já dominam a internet. Arrisco a dizer que as mudanças partiram da criação do YouTube, que trouxe para o mundo nomes que até então nunca tínhamos ouvido. A partir desse ponto, o desconhecido passou a ser interessante, relevante e acessível.

O sucesso foi tanto, que em 2007, a então Rainha Elizabeth II abriu um canal e passou a postar seus vídeos à nação no YouTube.

BBCBrasil.com | Reporter BBC | Elizabeth 2ª lança canal no site YouTube
Mensagem de Natal e vídeos da coroação serão disponibilizados.

Maratonando em 3, 2 ...

A televisão com sua programação linear perdeu espaço para o conteúdo disponível na íntegra, sem depender dos horários, da censura e dos anúncios.

É é realmente muito mais cômodo assistir quantos filmes ou séries forem possíveis a qualquer momento através dos serviços como Netflix, Prime Video, Disney...

Quem nunca maratonou Stranger Things, FRIENDS ou Eu, a Patroa e as Crianças?

O bordão, no mesmo horário, mesma emissora e mesmo canal não faz mais sentido, não queremos e não precisamos mais esperar as notícias em destaque, as novelas da Globo, ou os filmes inéditos.

Internet, Streaming e Informação em tempo real

Todas as mudanças trazidas pelas comodidades da Internet nas últimas duas décadas me levaram a uma reflexão de como passamos a necessitar de conteúdo em tempo real, séries disponibilizadas por completo em um dia, como exemplo. Estamos educados e educando nossos filhos a consumir uma informação rápida e superficial. Esse é o efeito de ter tanto conteúdo disponibilizado em um curto espaço de tempo.

Isso já existia em 2002, mas hoje se tornou mais latente.

Pisando no acelerador da vida e correndo dos significados

Acredito que a internet reproduz com muita clareza o que tem sido nossa rotina, seja no trabalho ou a convivência em família, pois os grandes diálogos e debates ficaram quase restritos às pessoas que ainda não dominam a tecnologia. Perdeu-se o significado de estar perto de outras pessoas.

Os encontros em família ficaram menos frequentes, mais superficiais e curtos, não existe assunto, conversar se tornou cansativo e está difícil manter a atenção em informações que não parecem ser tão relevantes, ainda mais se o que a pessoa está falando é notícia velha.

Tempo, tempo, tempo, tempo

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Voltando para 2002, recuperei minhas memórias mais singelas, com desenhos bem elaborados, a necessidade de esperar um novo conteúdo, e a paciência que isso gerou em mim.

As longas conversas com outras pessoas e a criação de afinidade, discutíamos algo que nos interessava, mesmo que para outros parecesse frivolidade.

Não é ruim pensar que eu tinha que esperar para assistir meus desenhos e séries prediletos, pelo contrário, me ensinou o valor da espera. Eu e meus colegas tínhamos o que falar no dia seguinte, todos vimos juntos.

Isso era bom, mas o novo que vivemos hoje é melhor?